Nossa avó mais velha

Pessoal,

Hoje eu trago para vocês um texto que escreví em 2005, mas que infelizmente continua MUITO atual… Espero que gostem!

 

Nossa avó mais velha

 

Resolveu fugir da cidade grande.
Arrumou as malas com o estritamente necessário para sua jornada, tudo posto dentro de um saco (daqueles de campanha).

Afinal, tinha direito a umas férias. A barraca de camping na mala do carro, algumas provisões, vara de pescar… não podia esquecer as botas de cano alto, afinal, ia para o meio do mato e lá tinham cobras e outros animais peçonhentos.

Ao entrar no carro, sentia como se faltasse algo, mas não conseguia lembrar o que. Partiu em direção ao seu destino… A Floresta.

No caminho lembrava-se das instruções que sempre recebia de sua avó quando saia em suas excursões nos tempos da juventude:

Limpe o que sujar, respeite a Natureza. Se retirar uma pedra para examinar, ponha de volta com cuidado no mesmo local. Se encontrar ovos de pássaro, recoloque no ninho, mas sem tocá-los diretamente. Observe a Natureza, seus lagos, árvores, animais… temos muito a aprender.

Perdido em seus pensamentos ele relembrava como era sábia a antiga geração. Como nossos avós nos ensinavam de forma pura e simples a viver plenamente.

Freou o carro bruscamente, dando graças aos Deuses por ter conseguido parar a tempo de evitar o atropelamento e por não ter nenhum outro carro atrás do seu, o que provocaria um grande acidente.

Era um cão de rua. Mais um dos animais que, por culpa de seus donos, são comprados por capricho e depois abandonados nas ruas, famintos, lutando para sobreviver diariamente e procriando por extinto, gerando mais animais abandonados. O cão deu um olhar amedrontado, mas agradecido e disparou para longe da estrada.

Ele passou por um caminhão. Símbolo da degradação da Natureza. Carregado de toras de madeira nobre, sabe-se lá de onde retirada, a que preço. O Caminhão vomitava lufadas de fumaça negra demonstrando estar mal regulado. Ele pisou fundo no acelerador e ultrapassou o caminhão, deixando-o bem para trás, até que sumiu no espelho retrovisor. Mas a imagem… Por mais que quisesse não conseguia livrar-se da imagem.

Começou a divagar em seus pensamentos até chegar ao seu destino.

A Floresta. Preservada, quase sem o toque do homem.Montou seu acampamento.. ainda era dia e à tarde mal começara. Resolveu dar um passeio pela floresta fechada. Calçou as botas de cano alto, as luvas e adentrou a mata.

Quanto mais entrava na floresta fechada, mais ouvia o som de água correndo. Seguiu o som até encontrar um belo córrego que, represado formava um maravilhoso lago de águas tão verdes que chegavam a ser fosforescentes.

Sentou-se à beira do córrego e começou a acompanhar as águas que seguiam num rumo certo, até perdê-las de vista. Lembrou-se que os mares eram formados exatamente de pequenos córregos que se uniam formando os grandes rios e que, por sua vez, desembocavam nos Mares. Pensou como a água era límpida…

Foi aí que entrou numa espécie de transe, tornou-se a própria água, fez todo o seu caminho, desembocou no Mar, estava feliz, repleto de alegria quando encontrou a mancha negra.

Petróleo!

Sua limpidez tornou-se negra, pegajosa. Misturado àquela massa turva, continuou seu percurso, e no seu caminho começou a notar que matava.

Matou peixes, matou pássaros desavisados que sobrevivem da pesca, matou o plâncton que alimenta inúmeras formas de vida e que é uma forma de vida em si. Sujou praias, areia …. Foi então que chorou!

Chorou pelos animais, pela água, pela estupidez gananciosa dos seres humanos. Chorou por sua Avó. Não conseguia compreender como a ganância levava homens a continuar usando o óleo para mover suas máquinas, carros… Sabia que já existiam descobertas com mais de 20 anos, descobertas essas que possibilitavam a substituição desse meio de energia por outros menos poluentes, ou mesmo que em nada agrediam o planeta. Lembrou-se também do lixo tóxico despejado no útero da terra, lixo esse que se tornara um grande negócio. Era uma cadeia de vício.

Homem produzia, e com sua produção produzia o lixo. Outros homens ganhavam dinheiro livrando-se do lixo dos primeiros. Ganhavam fortunas e, mesmo que fossem multados por agredir a natureza, essa multa não correspondia a 1% dos lucros. Um grande negócio, avalizado por nossos legisladores e governantes.

Alçou vôo no corpo de um pássaro que passava sobre o mar. Viu-se capturado, sedado e vendido numa feirinha de animais silvestres. Foi levado para uma casa e abandonado em um viveiro, apenas sonhando com a liberdade.

Subitamente lembrou-se mais uma vez de sua Avó, como gostaria que esses homens tivessem conhecido a boa Avó.

Morreu!

Quando se deu conta, estava novamente sentado à beira do laguinho. Os pés descalços dentro d`água e as botas jogadas lá atrás.

Pensou na palavra BRUXO. Deu-se conta de que essa palavra denotava, ou deveria denotar um bom NETO. Que a preocupação com a natureza era inerente a todo ser humano, mas mais importante ainda para o BRUXO. Desejou que todo homem compreendesse essa palavra. Que nossos governante tornassem-se bons Netos, que os humanos, preocupados com a natureza tornassem-se bons Netos. Que os poluidores tornassem-se bons Netos.

Lembrou-se do que tinha esquecido no início de sua viagem…

A TERRA É A NOSSA AVÓ MAIS VELHA.


 

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