Inspirados no mundo

Pessoal,
Algumas pessoas não sabem, mas meu hobby é fotografia submarina. Já tirei belas fotos e quem quiser vê-las, basta ir ao Facebook. É emocionante capturar essas imagens na natureza e eternizar os momentos!

(do Estadão)

Eles estão na linha de frente. Com a câmera em punho, registram espécies à beira da extinção e fenômenos naturais dramáticos. A tarefa parece divertida, mas é preciso talento, paciência, coragem e muita saúde para passar semanas a bordo de um barco, dias inteiros em aviões e horas debaixo d’água, para conseguir o clique perfeito. Por isso, no Dia Mundial do Meio Ambiente, o Planeta faz uma homenagem aos fotógrafos da natureza, ouvindo as histórias por trás das imagens prediletas de seis dos maiores profissionais da área.

Sem eles, poucos de nós conseguiríamos ter uma ideia da riqueza da biodiversidade que (ainda) existe no mundo. “Para fazer a última foto da ararinha azul na natureza, passamos cinco dias acampados próximo a um ipê onde ela costumava pousar”, relembra Luiz Claudio Marigo, que conseguiu o feito de clicar a espécie ameaçada de extinção em 1990, na Bahia.

Em suas andanças pela Amazônia, Marigo já foi perseguido por uma fêmea de jacaré ao tentar fotografar seu ninho de perto. “Ela me deu um chega para lá.”

O que move esses profissionais são sentimentos como indignação, responsabilidade, admiração, espírito de aventura e, sobretudo, a busca pela beleza.

“É uma bem-aventurança poder espalhar beleza e informação. Até mesmo quando fotografamos o horror estamos em busca da estética, do belo”, resume o premiado Araquém Alcântara, autor da imagem do tamanduá queimado (veja abaixo). Ele acha que o Brasil precisa daquilo que chama de “fotografia de combate” – e se diz revoltado com a atitude do homem. “Derruba em dez minutos o que a natureza demorou séculos para criar.”

Sentimento parecido tem o canadense Paul Nicklen, autor da foto dos ursos polares. “Eu preocupava anos atrás que não havia muitas histórias para contar. Quando vejo a crise climática em nível global, populações desparecendo, tenho a sensação de estar numa corrida para contar essas histórias, antes que não dê mais tempo.”

Mais otimista, o alemão Florian Schulz, que flagrou a migração de raias no México na premiada foto ao lado, diz que fotógrafos são profissionais com uma atribuição específica, a de tocar as pessoas.“Uma imagem estática prende a atenção de qualquer um. As pessoas se conectam imediatamente à mensagem que a foto passa.”

Schultz passa boa parte do ano fazendo palestras de conscientização nas quais exibe imagens e vídeos produzidos em parceria com sua mulher. “Muita gente sai desses eventos se perguntando o que pode fazer para ajudar. É uma ferramenta poderosa”, conclui. Marigo pensa parecido. “Ao usar a fotografia como denúncia, você anestesia as pessoas. É mais interessante provocar o interesse da população.”

Veja abaixo os seis fotógrafos selecionados pelo Planeta, que contam como fizeram seus cliques preferidos:

O voo da raia

Foto: Florian Schulz/Divulgação

O sonho de ser fotógrafo vem da adolescência. E a vontade de fazer algo pela biodiversidade também. Aos 16 anos, o alemão Florian Schulz foi para a Itália ajudar a proteger uma espécie de falcão. Hoje, aos 35, é membro da International League of Conservation Photographers e passa 8 meses do ano em campo, clicando, acompanhado de sua mulher, que faz vídeos.

Para conseguir a bela imagem de raias ao lado, que ganhou o prêmio Environmental Photographer of the Year de 2010, ele passou dois meses sobrevoando o litoral da Baja California Sur, no México, em fevereiro de 2009.

forum Carpetes voadores


“Essas raias migram da América do Sul para o México todo ano, entre fevereiro e abril. Voei umas 40 horas em um mês. Quando avistei esse cardume, não entendi o que era. Estávamos voando a uns 300 metros de altura. Quando chegamos perto, vi que as raias estavam em um local raso, na foto dá para ver até a areia branca. Comecei a clicar. A cena durou uns cinco minutos. De repente, uma delas deu um salto na água e, por milésimos de segundo, aquilo parecia o voo de um pássaro”, lembra. “Consegui dois cliques.”

Agonia do tamanduá na BR 163

Foto: Araquém Alcântara/Divulgação
O premiado Araquém Alcântara, de 60 anos, estava registrando engenhos para um livro institucional na ilha de Itamaracá, em Pernambuco, quando falou à reportagem do Estado. Contou na entrevista o que pretende fazer na próxima década. “Quero lançar quatro livros sobre a Amazônia e fazer minha caravana ‘Rolidei’”, disse, referindo-se à trupe de artistas mambembes do filme Bye Bye, Brazil de Cacá Diegues.

O apreço pela região talvez tenha influenciado Alcântara na escolha de sua foto preferida de natureza, feita durante uma viagem pela BR-163, que liga Santarém a Cuiabá. “Estava perto de Novo Progresso, no Pará, em agosto. Vi um movimento na floresta queimada. É o olho do fotógrafo, que faz um rastreamento quando chega a um lugar. Peguei um binóculo e o avistei. De perto, vi que estava queimado e cego. Ele ainda quis se defender, em pé, de braços abertos, mas não era mais um gesto de defesa. Era súplica. Ele parecia dizer: ‘Quem é você, o que pode fazer por mim?”, lembra. “Aquilo ali resumiu o que significa a Amazônia atualmente. Não vai haver prosperidade se não mudarmos a maneira de desenvolver a região.”

O bicho agonizante que cruzou o caminho do fotógrafo foi parar na última página do livro Amazônia, que rendeu ao fotógrafo um prêmio Jabuti. Alcântara conta que ainda clicava o animal quando foi interpelado por um homem com uma metralhadora. “Ele falou para eu sair dali rapidinho, e o atendi prontamente.”

Um palmo abaixo d’água

Foto: Luciano Candisani/Divulgação

O Atol das Rocas normalmente é descrito como um arquipélago a 145 quilômetros de Fernando de Noronha. Na verdade, são dois bancos de areia, cercados por 300 km de oceano, com profundidade de mil metros. Tem só uma palafita, restrita a cientistas e funcionários do Ibama. Com suas águas quentes, protegidas por recifes, é um berçário de espécies. Só de aves, são cerca de 200 mil. Fotógrafo com formação em Biologia pela Universidade de São Paulo, Luciano Candisani fazia um projeto no atol em 1999 e registrava imagens de um ninho de atobás quando a diretora do parque, Zélia Brito, avisou que um filhote de tartaruga retardatário seguia para o mar. “Foi sorte. Tartarugas nascem normalmente à noite. É difícil você ver esse processo.” Candisani correu para a palafita, trocou o equipamento e seguiu para o local. A tartaruga chegou à água cansada e ficou presa numa piscininha. “Fiquei ali em um palmo d’água. Tanto que você vê um recife no fundo da imagem. Usei uma lente grande angular, porque não queria documentar a tartaruga, queria buscar essa sensação de renovação de vida, de imensidão oceânica”, diz Candisani, que desde 2000 trabalha para a edição brasileira da National Geographic. O projeto no Atol das Rocas exigiu três viagens. Quase terminou mal. Na última etapa, Candisani sentiu dores na véspera da chegada do navio que o tirou do atol. Chegou a Natal e só conseguiu embarcar no dia seguinte para São Paulo, Saiu do avião direto para o hospital, com apendicite aguda. “Imagine se tivesse supurado lá, no meio do oceano.”

Ouvindo o mar

Foto: Brian Skerry/Divulgação

Ocean Soul (A Alma do Oceano) é o título do segundo livro de Brian Skerry. E, de certa forma, resume a carreira do americano que há mais de uma década registra a biodiversidade no fundo do mar para a revista National Geographic. “O mar realmente fala comigo. Sempre que fotografo, procuro capturar a alma do ambiente e dos animais marinhos, a evolução de seus movimentos, gestos, cenário”, conta.

Para capturar esses movimentos sutis, Skerry baixa a velocidade do diafragma da câmera, o que garante maior exposição à luz. Como fez na imagem de peixes ao lado, a sua favorita. “Fiz essa foto em uma ilha chamada Poor Knight, na Nova Zelândia. É uma reserva com uma biodiversidade fantástica”, conta.

O dia estava feio e nublado. “Mas isso pode ter contribuído para a composição”, acredita. Skerry mergulhou sozinho, como faz de costume. Depois de algumas horas de contemplação, conseguiu a imagem. “Tem uma luz especial e dá uma ideia do que seria um mar primitivo, que é uma coisa que eu procuro explorar.”

O fotógrafo lembra que, no início, “nadava, para cima e para baixo, procurando coisas para fotografar”. Depois, decidiu parar e observar. Natural de Massachusetts, ele tem duas imagens listadas entre as 40 melhores de natureza pela International League of Conservation Photographers.

Golpe de sorte no Ártico

Foto: Paul Nicklen/Divulgação

O canadense Paul Nicklen, de 42 anos, já tinha trabalhado com ursos polares como biólogo e clicado o animal milhares de vezes. “Queria fazer uma foto diferente, com o urso mergulhando. Tentei isso por dez anos no Ártico.” Quando a foto realmente saiu, em 2004, Nicklen não teve de se esforçar tanto. Foi o urso quem o encontrou, ou melhor, achou um amigo dele, caçador – mas não de ursos. De sua moto de neve, Nicklen viu a 1,5 quilômetro de distância um macho gigantesco tentando entrar na barraca do amigo. “Nunca gostei de perseguir ou assustar animais, mas neste tivemos de dar um susto. Ele fugiu e mergulhou sob uma fina camada de gelo e eu consegui a imagem. Foi um golpe de sorte.”

Nicklen quase perdeu o material. O filme passou por duas máquinas de raio X no caminho para sua casa, em Toronto. “Quase joguei fora. Na revelação, vi que estava danificado e a maioria das fotos era bem ruim, mas sobrou aquela, com o reflexo do urso na camada de gelo.” Nicklen acha que o caráter artístico da foto ajuda a contar a história do desaparecimento de uma espécie e de uma alteração radical no ambiente. “As pessoas entendem que o gelo está derretendo, ouvem isso o tempo todo. Mas não entendem que, quando o gelo sumir, vamos perder todo o ecossistema. Perder o gelo no Ártico é como não ter mais terra no jardim.”

O bote da onça no Pantanal

Foto: Luiz Claudio Marigo/Divulgação

Um dos trabalhos mais célebres de Luiz Claudio Marigo foi registrar bichos para cartões que vinham com o chocolate Surpresa, da Nestlé. “Formei uma geração inteira de chocólatras amantes da natureza.”

“Gosto de bicho. Da janela de casa fotografo mico, tucano…”, conta Marigo, autor do último registro de uma ararinha azul na natureza, em 1990, na Bahia. Em outubro, ele flagrou no Pantanal uma onça com um jacaré de 1 metro e meio na boca. “Estava num evento de observação de onça, no Rio Piquiri. Saíamos com os turistas em várias voadeiras, com rádios a bordo, para ver os bichos. Nos avisaram pelo rádio. Quando cheguei ao local, a onça tinha acabado de dar o bote.”

Morador do Rio, o fotógrafo, de 60 anos e 40 de experiência, registrou o momento em que o animal chegou a um tronco a nado, com o jacaré já entre os dentes. “Ela tentou subir pelo tronco, mas não conseguiu carregar o jacaré. Aí largou o tronco e nadou mais um pouco. Deu um salto, foi para a beira do rio e depois sumiu atrás do barranco para comê-lo em paz.” Dois dias depois, viu o felino, um macho, dormindo. “Estava na beira do rio, com a pança cheia, com certeza”, brinca.

Para Marigo, a fotografia de natureza vive um bom momento. “O brasileiro está começando a descobrir a natureza pelo prazer de fotografar em digital.”

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